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Companhia Dos à Deux

Ausência

Ausência

AUSÊNCIA

Uma Nova York ou uma São Paulo, um mundo em meio ao caos da falta de água e energia elétrica, um colapso que afeta todos os seres humanos e um homem que vive no alto de uma torre da metrópole. Esse é o clima que permeia a poesia do espetáculo Ausência, solo de teatro gestual da companhia franco-brasileira Dos à Deux, com o ator Luis Melo e direção de André Curti e Artur Ribeiro.

Primeira montagem solo do grupo – e primeiro espetáculo não protagonizado pelos diretores Artur e André –, a peça faz parte de uma linha de pesquisa característica dos 15 anos de carreira da companhia, o teatro gestual – em que a palavra dá lugar ao poder dos gestos e da interpretação corporal, dramaturgia na qual o ator Luis Melo marca sua estreia.

O encontro de Luís Melo com a companhia ocorreu de forma natural. Desde o ano 2000, o ator está na plateia da Dos à Deux. O processo de apropriação da linguagem aconteceu gradualmente por meio de um laboratório e uma adaptação que levou 5 meses. A intenção foi amadurecer e evoluir o contato entre os dois universos.

Com mais de 30 anos de teatro, ainda nos tempos de CPT (Centro de Pesquisa Teatral) Luís Melo já se interessava por manifestações artísticas que tinham o silêncio como mote principal, Pina Bausch, por exemplo.

A ausência referida no título é um elemento crucial do espetáculo. Em um cenário pós-apocalíptico, uma Nova York devastada pela radioatividade, pelo racionamento de energia elétrica e pela escassez de água potável, o protagonista vive confinado no último andar de um arranha céu e se descobre arrebatado pela ausência total – de humanidade, de coragem e de vida.

Sob a constante invasão de ratos, que tomaram as ruas e a irreparável necessidade de uma máscara de oxigênio até mesmo para abrir a janela, o homem sobrevive à base da assustadora ração de apenas uma gota d’água por dia, enfrentando constantemente a solidão, a escassez e o enclausuramento, em uma linha tênue entre a sanidade e a loucura. “Escolhemos Nova York como ponto de partida para a inspiração, mas poderia ser qualquer metrópole no mundo”, diz Artur.

Sua única companhia neste ambiente hostil e sem esperanças é seu peixe vermelho, imerso na água de seu aquário redondo. Recluso em seu mundo particular e incapaz de enfrentar o horror tóxico e irrespirável das ruas, o protagonista se vê diante de um grande dilema ético e existencial: matar ou não seu único objeto de afeto para beber da água do aquário.

Transitando entre a crueldade, a ternura e a insanidade, o homem reveza-se na caça e tortura de ratos que invadem seu espaço, na dedicação de amor e cuidado para com seu companheiro e em momentos de delírio e alucinação em que enxerga uma figura feminina a partir das formas e objetos a seu redor.

A carga dramática das situações é fortemente acentuada pela trilha sonora original do lisboeta Fernando Mota, pelo acabamento da luz assinada por Ph e Artur Ribeiro (característica das montagens do grupo) e pelo cenário caótico de Fernando Mello da Costa.

No palco, um ambiente em ruínas, recortado por um emaranhado de canos e registros que se cruzam indefinidamente em todas as direções, simbolizando o desespero pela busca da água.



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